Financeiro · · Atualizado em 11 de outubro de 2026
Como montar tabela de frete: do custo por quilômetro ao preço que o mercado paga

Muita transportadora sabe quanto custa rodar um quilômetro e mesmo assim perde dinheiro em frete. O problema não está no custo, está na ponte entre o custo e o preço: a tabela de frete. Sem uma tabela estruturada, cada cotação vira improviso, e improviso em negociação com embarcador termina sempre do mesmo lado.
Uma tabela de frete profissional não é uma lista de preços por cidade. É um sistema de precificação com componentes separados, cada um cobrindo um custo específico. Quando tudo vira um número único “fechado”, o cliente enxerga gordura onde não existe e você perde a capacidade de defender o preço item por item.
Quer saber o piso da sua viagem? Use a calculadora de frete ANTT da Growth Log: ela aplica a Portaria SUROC 22/2026 por tipo de carga, eixos e distância.
A anatomia de uma tabela de frete profissional
Toda tabela séria separa o preço em blocos. Cada bloco tem uma função e cobre um risco ou custo diferente. Misturar tudo é o primeiro passo para dar desconto no lugar errado.
- Frete-peso. A base da tabela: valor por faixa de peso e de distância. É aqui que entra o custo operacional do transporte em si, e é a única linha que deveria variar com negociação de volume.
- Frete-valor (ad valorem). Percentual sobre o valor da nota fiscal, tipicamente entre 0,3% e 0,5% em rotas comuns. Ele existe para pagar o risco e o seguro da carga: uma carga de eletrônicos de R$ 800 mil não pode pagar o mesmo que uma de ração de R$ 40 mil no mesmo caminhão.
- Generalidades. Taxa de coleta e entrega, TDE (taxa de dificuldade de entrega), taxa de agendamento, paletização, devolução de canhoto ou comprovante. São serviços que consomem tempo e gente, e por isso têm preço próprio.
- Pedágio. Sempre destacado, nunca diluído no frete-peso. Pedágio muda por rota e por eixo, e quando está embutido você subsidia rota cara com rota barata sem perceber.
Essa separação não é burocracia, é defesa comercial. Quando o cliente pede desconto, você negocia o frete-peso e protege o ad valorem e as generalidades, que cobrem custos que não diminuem com o desconto.
Os adicionais que existem para não virar prejuízo
Além dos blocos básicos, a tabela precisa prever as situações que estouram o custo padrão. Quem não cobra adicional paga do próprio bolso, simples assim.
Redespacho é o exemplo clássico: quando a entrega final exige repassar a carga para outra transportadora, existe um custo real de transferência que precisa estar na tabela. Área de risco é outro: entregar em regiões com histórico de roubo de carga exige escolta ou gerenciamento de risco mais caro, e o ad valorem padrão não cobre isso.
Entrega em shopping ou em centro de distribuição com fila merece linha própria. Um CD de varejista que segura seu caminhão quatro horas na doca consumiu meio turno de motorista e veículo. Se a sua tabela não prevê taxa de agendamento e cobrança de estadia a partir de um limite (duas horas é referência comum), você está doando capacidade operacional. Já detalhamos esse cálculo no artigo sobre estadia e tempo de espera em doca.
O método: comece pelo custo por quilômetro completo
Tabela de frete não nasce do preço do concorrente, nasce do seu custo. E custo por quilômetro completo significa somar três camadas: custo fixo (salários, rastreamento, licenciamento, seguro do veículo), custo variável (diesel, pneu, manutenção por km) e depreciação do ativo. Quem esquece a depreciação descobre o erro na hora de renovar a frota.
Se você ainda não tem esse número por veículo e por tipo de operação, pare aqui e leia primeiro o guia de custo por quilômetro do caminhão. Um exemplo plausível: um truck em rota regional com custo fixo mensal de R$ 22 mil rodando 9.000 km/mês tem R$ 2,44/km de fixo; somando R$ 3,10/km de variável e R$ 0,90/km de depreciação, o custo completo é R$ 6,44/km. Esse é o chão de qualquer célula da sua tabela.
A segunda camada é o custo de servir de cada cliente, e é aqui que a maioria das tabelas falha. Dois clientes na mesma rota podem ter custos totalmente diferentes: um recebe em 30 minutos e paga em 15 dias, o outro tem estadia média de 3 horas, paga em 60 dias e devolve mercadoria com frequência. Prazo de pagamento é custo financeiro real: 60 dias a 1,8% ao mês corrói 3,6% da sua margem antes de qualquer imprevisto.
A terceira camada é a margem alvo por tipo de rota. Rota de retorno garantido aceita margem menor que rota onde o caminhão volta vazio; transferência FTL programada é um negócio, distribuição fracionada urbana é outro, com margens e riscos distintos (a diferença entre os dois modelos está no artigo sobre carga lotação e fracionada). Defina a margem por perfil de rota antes de olhar qualquer tabela de mercado.
Só depois disso entra o mercado. E aqui vale uma regra que evita muita confusão comercial.
Tabela de frete é teto e piso ao mesmo tempo: teto porque o mercado limita o quanto você consegue cobrar, piso porque o seu custo limita o quanto você pode ceder. Spot é leilão, tabela é contrato. Quem confunde os dois precifica contrato com lógica de leilão e quebra devagar.
Se o preço que o mercado paga fica abaixo do seu piso em uma rota, a resposta não é cobrir a oferta. É rever o custo (veículo errado para a rota, ociosidade alta) ou abrir mão da rota com dados na mão.
Fazer essa conta em planilha funciona até a terceira revisão. Depois vira um Frankenstein de abas que ninguém confia. No Growth Log, TMS para transportadoras rodoviárias de carga, o custo por quilômetro sai dos abastecimentos e das manutenções lançadas na operação, a margem real aparece por cliente e por rota, e a cotação já nasce comparando o preço proposto com o custo daquela viagem específica. A tabela deixa de ser um PDF estático e passa a ser testada contra a realidade todo mês.
O piso mínimo da ANTT: sua tabela não pode ficar abaixo
Existe um limite legal que muita transportadora pequena ignora: o piso mínimo de frete da ANTT, criado pela Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas. Ele é obrigatório para a contratação de frete, vale para carga lotação e para a contratação do veículo, e é atualizado periodicamente, inclusive por gatilho automático quando o diesel sobe.
Em 2026 o cenário ficou mais duro: a tabela foi atualizada em janeiro (Resolução 6.076), corrigida pelo gatilho do diesel em março, revista em julho pela Resolução 6.084/2026 e corrigida de novo em setembro, pela Portaria SUROC 22/2026. E a MP do frete endureceu as penalidades para quem contrata abaixo do piso, que agora vão além da multa. Cobrimos os detalhes no artigo sobre a MP do frete, CIOT e piso mínimo.
Na prática: antes de fechar qualquer célula da tabela, confira o valor na calculadora oficial da ANTT para a combinação de eixos, tipo de carga e distância. Se a sua tabela própria ficar abaixo do piso em alguma faixa, ela está errada duas vezes: juridicamente, porque expõe você e o embarcador a penalidade, e economicamente, porque o piso é calculado apenas com custos operacionais de referência, sem margem. Ficar abaixo dele significa trabalhar de graça com risco jurídico de brinde.
Os quatro erros que corroem a tabela por dentro
Alguns erros aparecem em quase toda transportadora que atendemos. Eles não derrubam a empresa de uma vez, corroem margem mês a mês até a operação “cheia de serviço” fechar no vermelho.
- Copiar a tabela do concorrente. Você não conhece o custo dele, a idade da frota dele nem o subsídio cruzado que ele faz entre rotas. Copiar preço sem copiar estrutura de custo é herdar o erro dos outros com a sua margem.
- Descontar o frete-peso e esquecer que as generalidades não cobrem o buraco. Dar 15% no frete-peso para “ganhar o cliente” e achar que TDE e taxa de coleta compensam é autoengano: generalidades cobrem custos próprios, não sobram para subsidiar a base.
- Tabela única para clientes diferentes. O cliente que agenda, recebe rápido e paga em dia não pode pagar o mesmo que o cliente que devolve 10% das entregas e segura seu caminhão na doca. Sem diferenciar, o cliente bom subsidia o ruim e é justamente o bom que a concorrência leva.
- Reajustar só quando o diesel explode. Reajuste emergencial é negociação em pânico, com o cliente sabendo que você precisa dele. Defina gatilho de reajuste em contrato: variação acumulada do diesel acima de um percentual (5% é referência comum) dispara recomposição automática, sem drama e sem desgaste.
Tabela viva: revisão com margem real por cliente e rota
Uma tabela de frete boa hoje estará errada em seis meses. Diesel muda, pedágio muda, o mix de clientes muda, e o comportamento de cada cliente muda: aquele CD que recebia em uma hora agora segura três. Tabela profissional é tabela viva, com revisão trimestral marcada em calendário e gatilhos contratuais para o que não pode esperar.
A matéria-prima dessa revisão é a margem real por cliente e por rota, não a margem teórica da planilha. É ela que mostra qual célula da tabela está furada, qual cliente merece condição especial de verdade e qual está sendo carregado pelos outros (o método completo está no artigo sobre rentabilidade por cliente e rota). Com um TMS registrando cada viagem, cada estadia e cada custo, essa resposta deixa de ser opinião e vira relatório.
Se hoje a sua tabela mora numa planilha que ninguém atualiza desde o último aumento do diesel, esse é o sinal. O Growth Log mostra a margem real de cada rota e de cada cliente com os dados que a sua operação já gera. Agende uma demonstração e veja onde a sua tabela está deixando dinheiro na mesa.
Este texto faz parte do Guia de preço, custo e margem do frete, que reúne todos os artigos sobre o tema.


